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Cuba Libre

Bernardo Rücker | 16/10/2011

Estive em Cuba na virada do ano por quinze dias, em plenas comemorações do cinquentenário da revolução patrocinada por Fidel Castro e Che Gevara. Foi uma volta no tempo, mais especificamente para os anos 50. Impressionante como o país – compulsoriamente, conservou-se naquela época. A maioria dos prédios preserva a mesma pintura (ou falta dela). O mesmo se diga com relação às calçadas, à fiação elétrica e à arquitetura. No primeiro contato com Havana estiquei meu braço na rua e já estava andando num táxi Chevrolet 1954 absolutamente original. Atravessei o país e percebi um lugar muito distante de nossa realidade, com uma população absolutamente pobre e carente de necessidades básicas. Dezenas foram as vezes em que fui abordado por crianças pedindo um caramelo e mães pedindo leite ou um pedaço de sabonete de hotel usado. Pergunte a um cubano o que ele acha da revolução e a resposta é unânime: é ótima, maravilhosa, libertadora. Aperte um pouquinho e vem um sorriso amarelo. Aperte um pouco mais e ele ou sai correndo ou confessa que a única resposta plausível é aquela sob pena de ir, como já foram cerca de 100 mil conterrâneos, para o paredón.

Liberdade e opressão, magicamente, se confundem.

Um cidadão cubano ganha hoje o equivalente a aproximadamente US$ 15 mensais, algo em torno de R$ 40. O topo da pirâmide que trabalha, a classe médica, pode chegar a seus US$ 30 por mês. Falta o essencial: roupa, comida, saneamento e água encanada. O socialismo imaginado por Che ao pregar a educação como lastro de crescimento social afastando o analfabetismo na ilha dois anos após a tomada do poder, em 1961, foi aniquilado pelo embargo econômico patrocinado pelo Tio Sam. Hoje a educação dos cubanos é filtrada e ditada pelos interesses militares dos irmãos Castro. O acesso à internet é altamente restrito, seja por filtros estatais seja pelo preço incompatível com a realidade social cobrado nas duas únicas lan house de Havana ou nos hotéis de luxo. Como a televisão só sintoniza o canal estatal, cuja programação se resume a novelas (inclusive brasileiras) e a propaganda da revolução, o maior passatempo do cubano é sentar na rua ou se debruçar na sacada admirando a cidade ou conversando com a vizinhança. Os cubanos transitam de um lado para o outro enquanto suas crianças brincam livremente numa cidade com baixíssimos níveis de criminalidade. Havana é uma cidade linda, cercada por história e romantismo. A ilha é banhada parcialmente pelo Mar do Caribe e a infraestrutura hoteleira (o turismo é a principal atividade econômica atualmente) é invejável. Os cubanos são extremamente solícitos, simpáticos e curiosos em saber mais sobre o Brasil que veem na novela diariamente. Não podem viajar a não ser que tenham dinheiro, que sejam convidados por estrangeiros, sempre com prévia autorização do governo.

Na volta, os olhos se satisfizeram ao reconhecer as marcas anunciadas de aparelhos celulares, ao ver os conhecidos carros nas ruas e as mesmas cadeias de alimentação amplamente anunciadas nos outdoors. Mas ainda não estava em casa, e sim numa escala na Cidade do Panamá. Poderia, entretanto, ser Paris, Nova Iorque, Buenos Aires, ou qualquer cidade de médio ou grande porte do mundo ocidental. O consumo globalizado regrado pelos ditames comerciais centralizados em grandes grupos econômicos nos oferece a mesmice capitalista que deve nos confortar e satisfazer. Estaremos mesmo livres?

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